Flavio Bolsonaro, senador e candidato a presidente do Brasil. Foto: Getti Images
Um grupo de bispos católicos de dioceses de todas as regiões do país divulgou uma carta em que afirma que a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) "ameaça frontalmente diversos pontos centrais" da Doutrina Social da Igreja (DSI), "a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum".
O texto, que não cita nomes, descreve o senador bolsonarista como "filho do presidente que foi condenado e preso por atentar contra a democracia". A carta foi divulgada pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo. A última versão do documento contava com 54 assinaturas.
Intitulado "Carta de bispos católicos ao povo de Deus diante do segundo turno das eleições presidenciais de 2026", o documento parte de um trecho da encíclica Magnifica Humanitas, do papa Leão XIV, segundo o qual há conflitos em que "não é justo permanecer neutros".
"Diante desses e inúmeros outros elementos, não podemos nos manter neutros, a fim de que nossa consciência ou a história não nos condenem no futuro. Quem se calou diante das ameaças totalitárias que se concretizaram na Europa do século XX deixou uma herança vergonhosa para as gerações seguintes", escrevem os bispos.
Os signatários afirmam estar "em comunhão" com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e alinhados à mensagem divulgada pelo Conselho Permanente da entidade na quarta-feira (21), que defendeu a Constituição e o respeito às urnas e pediu que os eleitores avaliassem a trajetória dos candidatos, também sem citar nomes. A carta, no entanto, é uma iniciativa dos bispos que a assinam, não um documento oficial da CNBB.
Sete pontos de conflito
A carta lista sete pontos em que, segundo os bispos, a candidatura de Flávio Bolsonaro contraria os ensinamentos da Igreja. No mundo do trabalho, afirma que "a candidatura que sempre foi contra o fim da escala 6×1 e propunha pagar o salário por hora trabalhada não reconhece a dignidade do trabalhador e poderá voltar a este tema".
Sobre a soberania nacional, os bispos dizem que o candidato "promete submissão do Brasil aos Estados Unidos", "fez parte de uma conspiração para taxar produtos brasileiros", defende a intervenção estrangeira nas eleições e "promete entregar nossas terras raras à exploração dos EUA".
Em relação aos pobres, citam a exortação apostólica Dilexi Te e afirmam que o partido do candidato "sempre foi publicamente contrário aos programas sociais e de combate à pobreza", ainda que Flávio Bolsonaro agora diga que vai manter alguns deles.
O texto também critica a promessa de ampliar o acesso a armas, "como fez o seu pai em seu governo", tema que já havia aparecido na homilia do arcebispo de Aparecida, que pregou uma "paz desarmada" na missa do Dia de Nossa Senhora.
Na área ambiental, os bispos acusam o candidato de negar a crise climática e de querer dar continuidade às "políticas de devastação" do governo de Jair Bolsonaro, e citam a lei de licenciamento ambiental aprovada em 2025, chamada de "Lei da Devastação".
Os dois últimos pontos tratam de direitos humanos e democracia. A carta afirma que o candidato "é publicamente favorável à tortura" e que sua família homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da ditadura militar.
Segundo os bispos, Flávio Bolsonaro "fez várias declarações de ameaça à ordem constitucional" e, se eleito, governará com maioria no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF), "criando as condições para uma usurpação do poder". No início do mês, o senador disse que pretende usar a maioria de direita no Congresso para "mudar a Constituição".
Responsabilidade com os pobres e respeito à Constituição
Sem citar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a carta diz que a outra candidatura, "embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição".
"Gostar ou não do atual governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja", afirmam os bispos, que também pedem aos católicos que não deixem de votar.
Entre os signatários estão o presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, e os arcebispos de Porto Velho (RO), dom Roque Paloschi, de Feira de Santana (BA), dom Zanoni Demettino Castro, e de Uberaba (MG), dom Paulo Mendes Peixoto. A lista inclui bispos da Amazônia, do Nordeste, do Sudeste, do Centro-Oeste e do Sul.
A carta se soma a um histórico de atritos entre Flávio Bolsonaro e a Igreja Católica nesta campanha. Em setembro, o senador atribuiu a "gente de dentro da CNBB" a circulação de um boato sobre Nossa Senhora Aparecida, o que a entidade negou. No mesmo período, a Comissão Brasileira Justiça e Paz, organismo ligado à CNBB, entregou aos bispos um relatório com 58 ataques da extrema direita contra a entidade e os católicos desde 2018.