Coxim MS

Manoel Pesso: o homem que trouxe a primeira gráfica para Coxim

6 SET 2026 - 18h:48 Por Glenda Melo/Diário do Estado MS

Existem homens que mesmo depois de partir, continuam morando na memória das pessoas, nas histórias contadas pelos filhos, nas fotografias guardadas com carinho, nas amizades que resistem ao tempo e, sobretudo, na cidade que ajudaram a construir.

Nascido em São Paulo, ele escolheu Coxim como lar, criou sua família às margens do rio Taquari, ajudou a construir o município e fez do trabalho, da fé, da justiça e da solidariedade os pilares de uma vida que ainda hoje permanece viva na memória de quem o conheceu.

Manoel Pesso foi um desses homens.

Ele nasceu longe de Coxim, em 6 de junho de 1935, na cidade de São Paulo. Mas algumas histórias parecem contrariar o destino: o homem que nasceu em uma grande cidade paulista encontraria, anos mais tarde, às margens do Rio Taquari, o lugar que escolheria para chamar de seu.

Coxim não foi o lugar onde Manoel nasceu.

Foi o lugar que ele escolheu.

E talvez essa seja uma das partes mais bonitas de sua história.

No dia 16 de março de 1970, Manoel Pesso chegou a Coxim com a família e ajudou a escrever uma nova página na história do município. Naquela época, a cidade ainda era muito diferente da Coxim que conhecemos hoje. Não havia o movimento das grandes avenidas, nem a estrutura urbana que o município conquistaria ao longo das décadas.

Havia, porém, sonhos.

E havia homens dispostos a trabalhar para transformá-los em realidade.

Foi nesse cenário que nasceu uma história que atravessaria gerações: a Tipografia Bandeirantes, reconhecida como a primeira empresa gráfica de Coxim.

O trabalho que começou naquela época permanece vivo até hoje.

São 56 anos de história, de tinta, papel, máquinas, letras e dedicação. Mas, acima de tudo, são 56 anos de uma família que encontrou no trabalho uma maneira de sobreviver, crescer e participar da construção de uma cidade.

A gráfica, instalada inicialmente onde funcionava naquela época a Secretaria de Obras, às margens do Rio Taquari, tornou-se muito mais do que um empreendimento.

Foi o legado de Manoel.

Foi o lugar de onde saiu o sustento para criar seus filhos.

Foi onde uma família inteira aprendeu o valor do trabalho.

Foi onde um homem simples deixou uma marca que o tempo não conseguiu apagar.

Um homem de princípios em um tempo em que a palavra tinha peso

Quem conheceu Seu Manoel o descreve com palavras que parecem pertencer a outro tempo: retidão, caráter, princípios, honestidade, humildade e justiça.

Era um homem correto.

Extremamente correto.

Daqueles que acreditavam que uma palavra dada deveria ser cumprida e que fazer o que era certo importava, mesmo quando fazer o certo fosse mais difícil.

Enfrentou as adversidades da vida com fé, paciência e humildade.

Não era homem de se curvar diante das injustiças.

Sempre que enxergava algo que considerava errado, procurava se posicionar. Combatia as asperezas da vida com aquilo que carregava dentro de si: a convicção de que o ser humano deveria agir com razão, justiça e dignidade.

Talvez por isso tenha conquistado tantos amigos.

E talvez por isso sua ausência ainda doa tanto.

Porque homens assim não deixam apenas saudade.

Deixam falta.

O homem que amava a família

Se no trabalho Manoel era firme, correto e exigente, dentro de casa existia outra versão daquele homem.

O pai.

O marido.

O amigo.

O homem carinhoso.

Ao lado de Erna Reindel, construiu um casamento de mais de três décadas. Dessa união nasceram os filhos Solange, Simone, Antonio Carlos, Claudio Pesso e Silvia Regina Pesso.

E foi por eles que Manoel trabalhou.

Por eles enfrentou dificuldades.

Por eles levantou cedo.

Por eles manteve as mãos ocupadas e o coração cheio de esperança.

A Tipografia Bandeirantes não foi apenas um negócio. Foi o instrumento com que ele criou os filhos e sustentou sua família.

E, quando o trabalho terminava, era dentro de casa que ele queria estar.

Seu Manoel gostava da família reunida.

Gostava da casa cheia.

Gostava dos filhos por perto.

Gostava da simplicidade.

Não precisava de luxo para ser feliz.

Um prato de arroz, feijão e ovo estava entre suas comidas preferidas.

Talvez porque a felicidade, para ele, nunca tenha dependido de muito.

Dependia de estar com quem amava.

O pai que ensinou mais com atitudes do que com palavras

Na criação dos filhos, Manoel era um pai firme.

Não era de bater.

Era de conversar, de chamar a atenção, de dar a conhecida “dura” quando entendia que era necessário.

Naquela família, o papel de cobrar com mais severidade muitas vezes acabava ficando para a mãe, enquanto Manoel seguia sendo aquele pai que, mesmo firme, era também amoroso, gentil e presente.

E existem ensinamentos que não cabem em discursos.

Estão nos gestos.

Estão nas lembranças.

Estão naquilo que um filho carrega para o resto da vida.

Uma dessas lembranças ficou marcada para sempre na família: o Rio Taquari.

Foi ali que o pai de Manoel ensinou o pequeno ainda filho Claudio a nadar.

O rio que atravessa a história de Coxim também atravessaria a história daquela família.

Ali havia pesca, brincadeiras, convivência e memórias.

Seu Manoel gostava de pescar com os filhos.

E talvez essas horas à beira do rio fossem algumas das mais preciosas de sua vida.

Porque o tempo passa.

Os filhos crescem.

As responsabilidades aumentam.

Mas determinadas lembranças permanecem intactas.

Um pai.

Um filho.

Um rio.

E um ensinamento que atravessa gerações.

Entre o samba, o bolero e a alegria de viver

Quem olhava apenas para o homem sério, correto e trabalhador talvez não imagine o outro lado de Manoel.

Ele também gostava de festa.

Gostava de música.

Gostava de samba e bolero.

E era um bom dançarino.

Tinha alegria.

Era brincalhão.

Gostava de conversar.

Tinha muitos amigos.

Sua casa estava quase sempre cheia.

Era daquelas pessoas que tinham o raro dom de fazer com que os outros se sentissem bem-vindos.

E entre tantas amizades, uma ocupava um lugar especial: Seu Mahmud Ziada

Mais do que amigo, Mahmud foi companheiro, conselheiro, irmão confidente e presença constante na caminhada de Manoel.

Uma amizade construída no tempo, na confiança e na cumplicidade.

Dessas que não precisam de muitas explicações.

Dessas em que um entende o silêncio do outro.

Os dois já partiram, mas a história dessa amizade permanece como parte da memória daqueles que os conheceram.

Fé, fraternidade e compromisso com o próximo

Homem católico, Manoel carregava a fé como parte de sua maneira de enxergar a vida.

Mas sua religiosidade não parecia existir apenas dentro da igreja.

Ela aparecia na forma como tratava as pessoas.

Na solidariedade.

Na caridade.

Na disposição para ajudar.

Na indignação diante das injustiças.

No cuidado com aqueles que precisavam de uma mão estendida.

Manoel também foi integrante da Loja Maçônica Amor e Justiça, espaço no qual encontrou valores que dialogavam com princípios que já faziam parte de sua vida: fraternidade, retidão, solidariedade e compromisso com o próximo.

Sua vida foi guiada pela convicção de que ninguém constrói uma sociedade melhor pensando apenas em si.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores dimensões de seu legado.

Um homem que olhou pelas crianças de Coxim

Seus filhos conheceram o pai dentro de casa.

Mas Coxim conheceu Manoel também através de suas ações sociais.

Ele foi voluntário em diferentes entidades e se dedicou a causas que tinham como objetivo ajudar aqueles que mais precisavam.

Entre essas histórias está sua participação na Sociedade de Amparo ao Menor de Coxim (Samec), entidade que cuidava de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e que, em muitos aspectos, remete à função que hoje é lembrada pela Guarda Mirim.

Manoel não olhava para aquelas crianças como números.

Ele enxergava pessoas.

Crianças que precisavam de oportunidade.

Crianças que precisavam de proteção.

Crianças que precisavam acreditar que poderiam ter um futuro diferente.

Ao lado de outros nomes importantes da história social de Coxim, como seu grande amigo Francisco (Chico Piloto), também já falecido, Manoel esteve entre aqueles que lutaram para oferecer caminhos melhores aos menores coxinenses.

Era uma luta silenciosa.

Sem holofotes.

Sem necessidade de aplausos.

A recompensa estava em saber que, de alguma maneira, uma vida poderia ser transformada.

Ele não nasceu em Coxim. Mas Coxim nasceu dentro dele

Talvez seja impossível contar a história de Manoel Pesso sem contar um pouco da história de Coxim.

Quando chegou, em 1970, a cidade ainda estava em processo de crescimento.

Ele viu ruas mudarem.

Viu famílias chegarem.

Viu crianças crescerem.

Viu o município se transformar.

E, enquanto Coxim crescia, Manoel também construía sua própria história.

Aqui ele trabalhou.

Aqui criou os filhos.

Aqui construiu amizades.

Aqui viveu seus sonhos.

Aqui enfrentou as dificuldades.

Aqui encontrou sua comunidade.

Aqui ajudou.

Aqui amou.

Aqui foi feliz.

Aqui escolheu ficar.

Porque existem lugares onde nascemos.

E existem lugares que escolhemos para pertencer.

Coxim foi esse lugar para Manoel.

Ele não nasceu às margens do Taquari.

Mas foi aqui que sua vida ganhou raízes profundas.

Um legado escrito em papel, mas gravado no coração

Existe algo de simbólico na profissão que Manoel escolheu.

Uma gráfica trabalha com letras.

Com palavras.

Com histórias.

Com registros.

Durante décadas, a Tipografia Bandeirantes colocou palavras no papel e ajudou a registrar acontecimentos de Coxim.

Sem saber, talvez Manoel estivesse fazendo algo ainda maior.

Estava escrevendo a própria história dentro da história da cidade.

Hoje, 56 anos depois da chegada da família a Coxim, a gráfica permanece como uma espécie de testemunha viva de sua passagem.

As máquinas podem ter mudado.

A cidade mudou.

As tecnologias mudaram.

As pessoas mudaram.

Mas o nome permanece.

E é justamente isso que torna um legado verdadeiro tão bonito.

Ele não depende da presença física.

13 de abril de 1996: o dia em que Coxim ficou mais silenciosa

Manoel Pesso morreu em 13 de abril de 1996.

Tinha 60 anos.

E sua partida deixou um vazio profundo.

Naquela época, seu cortejo foi gigantesco.

Gente de diferentes lugares.

Amigos.

Familiares.

Pessoas que haviam trabalhado com ele.

Pessoas que receberam sua ajuda.

Pessoas que simplesmente gostavam dele.

A multidão que acompanhou seu último caminho dizia, sem precisar de palavras, aquilo que a cidade sentia.

Manoel era querido.

Muito querido.

E quando um homem tão presente na vida de uma comunidade parte, a cidade inteira parece perder um pouco de sua própria história.

Trinta anos depois, a saudade ainda mora na família

O tempo passou.

Já se passaram três décadas desde aquele 13 de abril.

Mas há ausências que o calendário não consegue envelhecer.

A saudade continua.

Continua nos filhos.

Continua nas lembranças.

Continua nas histórias contadas dentro de casa.

Continua no nome da família.

Continua na gráfica.

Continua nos amigos que sobreviveram.

Continua na memória daqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-lo.

E continua, principalmente, naquilo que ele deixou de mais precioso: seus filhos.

Cada um carrega uma parte daquele homem.

Um gesto.

Uma lembrança.

Uma frase.

Um ensinamento.

Uma história.

Talvez até uma maneira de olhar para a vida.

Porque um pai nunca vai embora completamente.

Ele continua vivendo nos filhos.

Seu Manoel, um homem de outro tempo

Há quem diga que Manoel era tão correto que talvez tivesse dificuldade para viver nos dias atuais.

E talvez exista verdade nisso.

Porque ele pertencia a um tempo em que caráter era patrimônio, palavra era compromisso e amizade era coisa séria.

Era um tempo em que uma casa cheia significava riqueza.

Em que o melhor jantar podia ser arroz, feijão e ovo.

Em que uma pescaria com os filhos valia mais do que qualquer presente.

Em que um amigo podia ser confidente por uma vida inteira.

Em que ajudar uma criança era simplesmente fazer aquilo que o coração mandava.

Em que o homem podia ser firme sem deixar de ser amoroso.

E em que uma cidade pequena podia ser grande o suficiente para guardar uma vida inteira.

A história de um homem que escolheu pertencer

Seu Manoel Pesso nasceu em São Paulo.

Mas sua história pertence a Coxim.

Foi aqui que ele colocou seus sonhos no chão.

Foi aqui que construiu sua família.

Foi aqui que abriu caminhos.

Foi aqui que ajudou a criar oportunidades.

Foi aqui que fez amigos.

Foi aqui que pescou com os filhos.

Foi aqui que dançou samba e bolero.

Foi aqui que trabalhou até cansar.

Foi aqui que exerceu sua fé.

Foi aqui que lutou pelas crianças.

Foi aqui que dividiu alegrias e enfrentou tristezas.

E foi aqui que viveu até o fim de seus dias.

Coxim não foi apenas a cidade onde Manoel Pesso morou.

Foi a cidade que ele adotou.

E, em troca, a cidade também o adotou.

Porque algumas pessoas não desaparecem

A morte leva o corpo.

Mas não leva aquilo que uma pessoa plantou.

Não leva os ensinamentos.

Não leva as boas ações.

Não leva os abraços.

Não leva as histórias.

Não leva as amizades.

Não leva o amor.

E não leva o legado.

Seu Manoel deixou uma gráfica.

Mas deixou muito mais do que uma empresa.

Deixou uma família.

Deixou amizades.

Deixou crianças que um dia receberam sua ajuda.

Deixou uma história de trabalho.

Deixou uma trajetória de fé.

Deixou exemplos de honestidade, caráter e justiça.

Deixou um nome que continua sendo pronunciado com carinho.

E deixou uma cidade um pouco diferente daquela que encontrou em 1970.

Talvez essa seja a verdadeira medida de uma vida.

Não quanto tempo alguém permaneceu neste mundo.

Mas quanto de si conseguiu deixar no mundo depois que partiu.

A última página nunca será escrita

Seu Manoel trabalhou a vida inteira cercado por letras.

Talvez por isso exista uma ironia bonita em sua história.

Ele passou décadas imprimindo palavras no papel, mas sua própria vida acabou sendo escrita em outro lugar.

Na memória.

Na memória dos filhos.

Na memória da família.

Na memória dos amigos.

Na memória das crianças que ajudou.

Na memória de uma cidade.

E enquanto houver alguém em Coxim contando que existiu um homem chamado Manoel Pesso, que chegou de longe, abriu a primeira gráfica, criou seus filhos, amou sua esposa, pescou no Taquari, dançou samba e bolero, defendeu a justiça, ajudou quem precisava e viveu com dignidade...

ele continuará presente.

Porque algumas vidas são como livros.

O último capítulo pode terminar.

Mas a história não termina.

E a história de Seu Manoel Pesso ainda está sendo contada.

Nas máquinas da gráfica.

Nas fotografias da família.

Nas lembranças dos filhos.

Nas amizades que o tempo não apagou.

E no coração de Coxim.

Ele nasceu em São Paulo.

Mas foi Coxim quem recebeu seus passos, seus sonhos, seu trabalho, sua família e seu coração.

E talvez seja esse o maior legado de um homem: chegar a um lugar sem ter nascido nele e, ainda assim, conseguir fazer com que, depois de sua partida, aquele lugar nunca mais seja o mesmo.

Seu Manoel Pesso partiu em 13 de abril de 1996.

Mas algumas pessoas não partem de verdade.

Elas apenas deixam de ser vistas e passam a ser lembradas.

E Seu Manoel Pesso será lembrado.

Para sempre.

Por: Glenda Melo/Diário do Estado MS

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